Inclusão e diversidade

A cidade do futuro terá a força e a potência femininas, afirma pesquisadora do Núcleo de Mulheres e Territórios do Insper

Em entrevista ao portal Habitability, Juliana Mitkiewicz fala de como a urbanização precisa da voz da mulher

Na língua portuguesa, cidade é um substantivo feminino. No dia a dia, não é bem assim. Seja na falta de representatividade nas políticas públicas, seja na insegurança no transporte público ou na vulnerabilidade econômica, as mulheres ainda têm um acesso desigual ao espaço urbano. Mas isso pode e deve mudar na dinâmica das cidades do futuro, como conta a coordenadora do Núcleo de Mulheres e Territórios do Arq.Futuro do Insper Juliana Mitkievicz, em entrevista exclusiva ao Habitability.

“A urbanização não é masculina, é feminina”, disse ela, que vê o espaço urbano por meio de uma lente feminina e consegue enxergar, dessa forma, a potência para a transformação ativa do ambiente. “Não tem como falar de um futuro mais feminino para a cidade sem ter um olhar feminino para a cidade”, disse a pesquisadora.

Com exemplos práticos do que já acontece em comunidades periféricas, Juliana indica que vê na ação feminina um olhar mais coletivo do que individual. Mas, para isso chegar, de fato, às cidades, é necessário que se repense o “design de políticas públicas”. Afinal, quem constrói, quem usufrui e quem melhora a cidade?

Por que falar de gênero é importante quando falamos sobre o futuro das cidades?

Juliana Mitkievicz – A resposta é triste, mas simples: porque existe uma desigualdade de gênero estrutural na nossa sociedade como um todo. E é importante ressaltar que a questão de gênero vem atrelada com questões como raça e desigualdade social. Quando se fala da história da construção da cidade e do urbanismo, é necessário ter representatividade. Mas quando olhamos hoje em dia, a representatividade está bem aquém do que precisamos para entender diferentes pontos de vista. Além disso, a questão das mulheres na cidade ainda toca o ponto familiar e o de mobilidade. Assuntos como a fila de espera na creche ou a segurança urbana tem peso na vida das mulheres e devem ser considerados na hora do planejamento urbano.

Muitas vezes, os órgãos públicos acabam equalizando a visão sobre os cidadãos, enxergando-os como dados e números. Por que é preciso levar a “individualização” do gênero para o planejamento urbano?

Juliana Mitkievicz – A mulher se movimenta de forma diferente na cidade do que o homem. Na média, é ela que leva os filhos à creche, que faz as compras do mês, que leva as pessoas da casa à unidade de saúde, então ela tem mais movimentação pela cidade. E não ter representatividade para discutir isso é complicado.

No ponto sobre a mobilidade, é preciso falar sobre o assédio e a insegurança que existe no transporte público. O mapa da desigualdade mostra que 51% das mulheres não se sentem seguras para sair à noite. E isso impacta diretamente a economia da região. Se a gente não tiver representatividade, nem política e técnica para resolver isso, a visão da cidade fica míope e enviesada para um grupo de pessoas que até pode ter boas intenções, mas não consegue resolver por não olhar para as questões dos outros.

As mulheres não têm representatividade suficiente na política. O design de políticas públicas precisa ser construído a partir da disputa de diferentes pontos de vista. E hoje quem desenha isso não representa esses diferentes pontos de vista.

Nesse sentido, qual é o trabalho do Laboratório Mulheres e Territórios do Arq.Futuro do Insper e como ele se conecta com a visão de futuro das cidades?

Juliana Mitkiewicz – É preciso usar dados e evidências para pautar as políticas públicas. Dados, na verdade, são histórias de um coletivo de pessoas. É preciso aumentar a quantidade de dados sobre a vida das mulheres nas cidades. E esse é um dos objetivos do núcleo: entender como se dá a inserção da mulher no espaço e como incluir a discussão do feminino no urbanismo. Temos quatro frentes principais: entender a demografia, divulgar o trabalho feito por mulheres, promover discussões públicas e construir a ponte entre o mundo acadêmico e o poder público. O quarto ponto – principal do núcleo – é conseguir, além da questão participativa, fazer com que os territórios se apropriem do método de pesquisa participativa para ganharem voz na política e fazer intervenções.

Pode dar um exemplo de alguma conquista de integrantes do núcleo nesse sentido?

Juliana Mitkiewicz – Um exemplo é o trabalho que duas atuais professoras do Núcleo fizeram foi na favela da Maré, no Rio de Janeiro.A Redes da Maré foi criada por duas líderes comunitárias que, hoje, são professoras do Núcleo. Eles fizeram o censo das favelas da Maré, e tem levantado evidências para transformar a realidade do território. Em Heliópolis, em São Paulo, tem o “de olho na quebrada”, que levanta dados mais atualizados sobre a favela. Ambos os projetos foram feitos por lideranças femininas.

Vale destacar que existem informações incongruentes quando se trata de dados das favelas: por exemplo, o IBGE diz que Heliópolis tem 65 mil habitantes, a subprefeitura de Ipiranga fala em 180 mil habitantes, a Secretaria Municipal de Saúde indica que são 140 mil. E, como várias entidades fazem o planejamento e o orçamento a partir desses números de densidade populacional, conseguir dar essas informações corretas é importante.

Nessa parte, o trabalho que fizemos, além da pesquisa para entender como a COVID afetou a vida das mulheres em 3 territórios negligenciados (favelas e comunidades de baixa renda) naxqiestao do trabalho remunerado, trabalho de cuidados d violência doméstica, fizemos também o levantamento e partilha das ações que aconteceram nesses territórios para o combate da COVID. A pesquisa confirmou que as mulheres duplicaram sua jornada de trabalho de cuidados enquanto perderam sua renda, por trabalhar principalmente no setor informal de limpeza. As ações possibilitam a troca de conhecimento e projetos entre os territórios o que potencializou a rede de solidariedade durante a pandemia. Atualmente estamos com outra pesquisa que inclui pesquisadoras da própria comunidade. conseguimos capacitar 20 mulheres para realizarem entrevistas em 5 territórios parceiros do Núcleo. Esse modelo possibilitou para além da agilidade de coleta de dados e melhor confiabilidade, uma sensibilização e conexão das mulheres dos territórios com a pesquisa.

Essa nova pesquisa é sobre empreendedorismo, acesso a crédito, acesso à escola e pré escola e acesso a políticas públicas. O objetivo é desenvolver instrumentos de pesquisa participativa que sejam apropriadas pela própria comunidade e olhar para questões relevantes trazidas pelas próprias mulheres dos territórios

Como esses projetos se interligam?

Juliana Mitkievicz – Os projetos se interligam pelo núcleo, representadas pelas professoras e pesquisadoras associadas que também são lideranças comunitárias. Ex. Eliana Silva, que além de professora do Núcleo, coordenada a pós graduação em Urbanismo Social, é moradora do conjunto de favelas da Maré e fundadora da Redes da Maré. Temos também a Carmen Silva líder do Movimento Sem Teto do Centro, Cleide Alves presidente da Unas Heliópolis, Ester Carro presidente do projeto Fazendianhando, no Jardim Colombo.

Como podemos começar a pensar em construir a cidade do futuro mais feminina?

Juliana Mitkievicz – Deve se começar colocando uma lente de gênero. Não tem como falar de um futuro mais feminino para a cidade sem ter um olhar feminino para a cidade. E um olhar feminino não é único. Ele também é plural respeitando a interseccionalidade que temos da mulher, a mulher mãe, a mulher negra, a mulher idosa, a mulher jovem, a mulher indígena… temos diferentes perfis de mulheres que devem ter seus direitos à cidade garantidos. Como fazemos isso? Com mais representatividade desses diversos perfis na política, como tomadores de decisão, trazendo as pautas e necessidades das mulheres

É interessante observar o protagonismo feminino na transformação desses espaços. O que isso quer dizer sobre as cidades?

Juliana Mitkievicz – A urbanização não é masculina, é feminina. As áreas urbanas não consideram a vida, a rotina, as necessidades das mulheres. No entanto, elas foram pioneiras nos espaços urbanos e continuam sendo as maiores mobilizadores de pautas coletivas. A falta de transporte público seguro, as ruas sem iluminação e a falta de acesso a serviços de pré escola, são falhas nas políticas urbanas, governanças e projetos, feitas por homens, afetando diretamente a vida dessas mulheres e crianças. Ao incluir o olhar feminino em seus diversos aspectos, podemos reconhecer e remover barreiras e incluir ações efetivas seguras e inclusivas de acesso e direito à cidade.

Qual o papel da mulher na formação da cidade do futuro?

Juliana Mitkievicz – Acho que o papel da mulher é trazer diferentes pontos de vista para serem discutidos. É trazer a escuta e a representatividade não só feminina mas de diferentes grupos para pautar políticas públicas, governança e projetos mais inclusivos e justos, com olhar transversal à necessidades de diferentes grupos de pessoas. O papel da mulher é ocupar os espaços e trazer mais inclusão e acesso.

Um outro exemplo: na pandemia, o grupo de confiança das lideranças comunitárias fez um trabalho para além da pesquisa sobre vulnerabilidade à Covid. Criamos um grupo de trocas de ações efetivas para o combate à pandemia. O grupo começou como um espaço de conversa e passou a ser um lugar de troca de experiências. Elas viam o que as outras faziam em suas comunidades e replicavam. As mulheres pensam no nosso, e não no “meu”. Aquele trabalho das cestas básicas do Jardim Colombo, por exemplo, chegou a um ponto em que o projeto conseguiu mais do que o número de cestas básicas necessárias para atender à comunidade, e o que elas fizeram? Passaram a distribuir para outras 13 comunidades ao redor.

Como será a cidade ideal de 2050 a seu ver?

Juliana Mitkievicz – A cidade ideal é governada por coletivo de mulheres e de diferentes grupos representados, com processo democrático e inclusivo de elaboração, aprovação e execução de políticas públicas. Serviços públicos de saúde, educação, transporte e moradia de qualidade. A criança desse futuro vai ler nos livros de história que no passado houve desigualdade de gênero, racial e social.

Fonte: Habitability