Associadas Abrainc

País só terá sucesso se pacificar a política, diz controlador da MRV

Rubens Menin diz também que não dá para crescer se a classe média ficar para trás

O Brasil está esfacelado e não voltará a se desenvolver sem união política, afirma Rubens Menin, controlador de um dos maiores grupos empresariais brasileiros.

O problema, segundo ele, é que não há hoje político capaz de pacificação. “Quem hoje está lutando para conciliar o país? Não vejo ninguém.”

Para o empresário, que fundou há 40 anos a construtora MRV, a agenda econômica é insuficiente. “Não dá para crescer se a classe média ficar para trás, e igualdade de oportunidades é fundamental se quisermos ter uma nação.”

Na economia, ele diz que o impacto da queda dos juros está sendo subestimado, e considera a reforma administrativa e privatizações uma prioridade, porque será inútil mudar tributos sem cortar gastos. “O Estado tem que ser reduzido e ser supereficiente.”

Principal investidor da CNN Brasil, Menin afirma que se enganam os que afirmam que a emissora será “chapa-branca”: “Não defendo nem ataco o atual presidente”.

Segundo ele, imprensa é “ferramenta de educação da sociedade” e o país precisa de “nacionalismo inteligente”: “Temos que gostar mais do Brasil”.

O empresário também falou sobre o que deve mudar na forma de as pessoas morarem e conviverem com os vizinhos.

A MRV fez 40 anos. O que espera dos próximos 10? 

Mais que do ponto de vista econômico, as empresas têm que ser instrumento de mudança social. O mundo passa por um desafio muito grande: houve crescimento, mas metade do mundo não cresceu. Isso não fica de pé. Acredito no capitalismo, mas temos que arrumar uma solução para isso.

Onde o capitalismo falhou?

Ainda é o melhor sistema, mas precisa evoluir. Um dos maiores problemas hoje é a “affordability” [ter um preço que permita que as pessoas comprem]. A classe média está cada vez mais comprometida com saúde, educação, lazer, internet… Vai ser uma das grandes discussões mundiais daqui para a frente, e o Brasil precisa entrar nela.

O sr. escreveu recentemente em seu blog que, para se desenvolver, o Brasil precisa de união política.

Não tenho dúvida. É um dos problemas principais. O Brasil está todo esfacelado, e se não houver uma união nacional…

Como fazer isso num país conflagrado?

Precisa de uma agenda mínima que atenda a todos, remar todos juntos para o mesmo lado. Um país não tem sucesso sem essa união. Sem uma agenda comum, justa, equilibrada, não vai… Não estou falando das minorias, mas de consenso e agenda nacional comum.

Na sua opinião o atual presidente trabalha para construir ou para demolir essa união?  

Com toda franqueza, não vou nem defender nem atacar o atual presidente. Qualquer presidente hoje no Brasil não conseguiria fazer isso. Divido a agenda política em duas partes. Uma coisa que me incomoda muito é brasileiro falando mal do Brasil lá fora. Todos perdemos. Temos que gostar mais do Brasil. Acho que o presidente enxerga isso, mas talvez não esteja conseguindo fazer.

Refere-se aos pronunciamentos do presidente no exterior?

Sim, o nacionalismo é importante. Nacionalismo inteligente, não o burro. Veja como os americanos cantam seu hino com muito mais fervor. Quem tem que gostar do Brasil somos nós.

Outra coisa que a sociedade colocou de forma clara foi a corrupção. A corrupção no Brasil era muito maior do que a gente imaginava, foi surpresa para muita gente.

Foi surpresa para o sr.? 

Nesse nível, sim. Sabia que tinha, mas não nessa dimensão. Mas acho que vai acabar. Talvez não zerar, mas diminuir, porque a população não quer mais corrupção. Essa agenda está correta.

Mas a agenda política precisa ser conciliatória, e o que me preocupa é que não estou vendo ninguém com uma agenda conciliatória. Quem hoje está lutando para conciliar o país? Não vejo ninguém.

Não adianta fazer um Estado que tem 30% aqui, 40% aqui, mais tantas minorias. Não dá para ser consenso total, mas vamos tentar uma conciliação de uns 80% da população, isso tem que ser prioridade.

Rodrigo Maia [(DEM-RJ), presidente da Câmara] tem sido conciliatório? 

Hoje ninguém faria. Nenhum político no Brasil tem condições, as desavenças estão muito grandes. Não sou contra a política, até acho que ela melhorou. Entrou uma turma nova de deputados, as coisas não passam mais por baixo do tapete. E vai melhorar mais nas próximas eleições.

Por quê?  

A população não vai mais querer o jogo antigo. Acabou o ‘rouba, mas faz’. Você vê que sou mais otimista que a média [risos].

O sr. não tem atuação política direta, mas está no movimento Você Muda o Brasil e foi um dos grandes doadores de campanha.  

Com muito prazer, era a forma legal que havia de colocar pessoas boas, que passaram por um crivo, como os do movimento Renova.

Quais seus critérios para doar? 

Pessoas que conheço, que sei das qualidades pessoal, intelectual, ética, honestidade.

Mais que a agenda? 

Agenda também, mas não adianta ter agenda boa se é desonesto.

A agenda boa é liberal do ponto de vista da economia?  

Não só. O social também. O Brasil ideal é o Brasil da pacificação em que haja uma agenda econômica e uma agenda social.

Como social o sr. considera igualdade de oportunidade? Distribuição de renda?

Tudo, tudo. Não adianta ficar ilhado. A discussão da Roundtable 200 [grupo dos maiores empresários americanos, que recentemente defendeu capitalismo com inclusão social] para mim é o estado da arte hoje. Não dá para crescer se a classe média ficar para trás, e igualdade de oportunidades é fundamental se quisermos ter uma nação.

Outro fator, no qual eu vinha sendo low profile, é a filantropia [ele integra o Bem Maior, que reúne empresários filantropos].  Nos EUA, eles doam 2% do PÌB, na Inglaterra 1,5%, no Brasil, 0,2%. É preciso devolver para a sociedade. Um dos problemas é que não há bons projetos para doar. Não adianta ter dinheiro sem gestão, projetos e gente. Se a gente conseguir mostrar resultado para a sociedade, isso vai funcionar, e o Brasil precisa muito disso. Não podemos estar neste mundo a passeio.

O Luciano Huck, que faz parte também do Bem Maior, tem se apresentado…

O Luciano está agora com um viés político. A gente não tem viés político. Se for para a política partidária, vou perder minha liberdade.

Huck não tem feito política partidária.  

Estou falando de mim. Mas o Bem Maior não pode ter conotação partidária. Não me manifesto de forma partidária nem denegrindo a imagem de ninguém, porque aí vai contra tudo o que penso.

O sr. é apontado como defensor do presidente Jair Bolsonaro. 

É só me mostrar onde. Nunca defendi nem ele nem ninguém. As pessoas são gozadas. Falam que a CNN vai ser uma TV chapa-branca… Procuro me policiar muito nisso. Às vezes é importante falar do que é bom. Mas daí a ficar enaltecendo muito as coisas, não quero, não.

O investimento na CNN não deixa também de ser uma atuação política. Por que investir em TV?

Não é TV; vamos chamar de imprensa? Imprensa é uma ferramenta de educação da sociedade. Precisa se reinventar e investir em gente. Voltar a ter um papel de mais destaque e credibilidade na população, se quiser fazer esse papel de pacificação da sociedade, de união. E a gente não leva as coisas boas do Brasil para o mundo. Se a gente não levar, o mundo não vai querer vir para o Brasil.

Versão impressa.