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Mulheres têm papel fundamental no desenvolvimento da engenharia, da construção e do pré-fabricado de concreto no Brasil

Especial em homenagem às personalidades femininas que têm contribuição ímpar para a evolução dos três setores produtivos

As personalidades femininas trazidas nesta matéria especial em homenagem ao Dia Internacional da Mulher são exemplos atuais de como o trabalho árduo somado as características, como sensibilidade, resiliência, persistência, foco e discernimento, resultam em uma contribuição ímpar para a evolução desses três setores, em diferentes contextos e setores produtivos

As mulheres têm conquistado um espaço cada vez maior no mercado de trabalho, mostrando sua competência, liderança e foco. Superando cenários adversos, a participação feminina tem elevado a qualidade das decisões, dos planejamentos estratégicos, das operações, da execução de tarefas cotidianas, dos debates e das pesquisas em todos os setores da economia. A determinação dessas profissionais tem corroborado para trazer sensibilidade a todos os ambientes e, ao mesmo tempo, uma assertividade que contribui para a produtividade e competitividade das economias em todo o mundo.

No Brasil, essa realidade é comprovada por um levantamento recente divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que aponta que, pelo quinto ano consecutivo, houve um aumento na participação das mulheres no mercado de trabalho. Os dados são de 2019 e naquele ano a taxa de participação feminina chegou a 54,5%. Outro dado relevante da pesquisa é que houve um crescimento de 1,2 milhão no número de mulheres ocupadas como empregadoras ou conta própria com CNPJ desde 2012.

Na construção civil, de acordo com a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), do Ministério do Trabalho, entre 2002 e 2012, o número de mulheres trabalhando no setor cresceu 65% e, entre 2006 e 2016, houve uma alta de 10%. Nas faculdades de engenharia pelo país, o percentual de mulheres também tem se elevado. Em 2015, segundo o Censo da Educação Superior, o índice chegou a 30,3% das vagas.

Apesar da crescente participação feminina no setor, há ainda muito a ser feito para que haja um espaço ainda maior para as mulheres na engenharia e na construção. Isso porque cerca de 19% dos profissionais registrados em todas as modalidades no sistema do Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia (Confea)/Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) são do sexo feminino, ou seja, em um universo de 982.158 inscritos, apenas 184.881 são mulheres.

Contudo, existem muitas personalidades femininas inspiradoras nos diversos segmentos que compõem a engenharia e construção, começando pelas lideranças nos âmbitos industriais e institucionais, passando por pesquisadoras nas universidades e institutos de pesquisa, chegando ao chão de fábrica e a operação. Além disso, é importante lembrar das precursoras, que deixaram sua marca na história e abriram caminhos para que as gerações atuais alcançassem mais reconhecimento e que as gerações futuras tenham ainda mais liberdade e espaço no setor.

Nesse sentido, em homenagem ao Dia Internacional da Mulher, promovido no dia 8 de março, a Revista Industrializar em Concreto conversou com algumas personalidades femininas da engenharia, construção e do pré-fabricado de concreto, para trazer ao leitor um pouco da história e da trajetória dessas profissionais e líderes vitoriosas e para ressaltar a importância da mulher para o engrandecimento desses três setores.

Indústria

A indústria brasileira de pré-fabricado de concreto conta com a participação de mulheres em diversas áreas, formadas nas mais diferentes carreiras que compõem uma empresa, trazendo sua contribuição diária para os negócios das fábricas e o desenvolvimento do setor como um todo.

Para a engenheira Iris Hortencio Fabri, diretora administrativa e comercial das empresas Sendi Engenharia e Construções e Sendi Pré Fabricados de Bauru/SP, a presença feminina na engenharia, além de preencher os próprios anseios e contribuir para o desenvolvimento do país, serve de inspiração para tantas outras mulheres e gerações na busca por seu espaço e na luta pelos seus sonhos.

 

Iris Hortencio Fabri

 

A engenheira Anestine Amanda Jaeger, diretora industrial da Pré-vale Pré-moldados de Concreto, avalia que sensibilidade, persistência, eficiência e competitividade são fundamentais em uma empresa. “Mas acredito que as organizações estejam caminhando para lideranças diferentes, com uma quebra de paradigmas na função das empresas para o coletivo. É dentro dessas mudanças que já aconteceram no último ano e das que ainda estão por vir, que entendo que teremos como grande força as mulheres. Na área de pré-fabricados, seja nas indústrias como na cadeia, temos uma participação feminina crescente nos últimos anos, mas ainda tímida. Temos muito a agregar ainda”.

Já Silvia Almeida, diretora administrativa da T&A Pré-Fabricados e ex-diretora de marketing da Abcic, ressalta a pluralidade na área de pré-fabricados de concreto. “É fato que há um aumento crescente desta atuação feminina no setor, não apenas na engenharia, mas em cargos de gestão e em outras áreas profissionais que eram comumente consideradas apenas para o sexo masculino. Isso, sem dúvida, representa um grande ganho para todos. Antes esses espaços conquistados pelas mulheres eram mais frequentes em cargos de “menor” responsabilidade, mas atualmente temos tido a felicidade de vê-las em posições de liderança de vários ramos: finanças, administração, tecnologias e engenharias”.

Por exercerem cargos de liderança em suas indústrias, Anestine, Íris e Silvia refletem sobre o que significa de fato ter responsabilidade pela condução dos negócios e de pessoas. “A habilidade de liderança tem que ser adquirida e melhorada na prática. Acredito que a maneira com que lidei com meus estudos e estar presente desde o começo da faculdade no dia a dia de uma empresa colaboraram muito para o desenvolvimento dessa habilidade em mim. Mas esse é um processo que deve ser constantemente melhorado, pois na prática lidamos com pessoas o tempo todo e devemos criar meios e alternativas para manter a equipe engajada, inspirada e motivada a todo momento”, explica Íris.

 

Anestine Amanda Jaeger

 

Anestine pondera que liderar equipes é enxergar cada um como único e buscar entender onde cada pessoa pode dar o seu melhor. Para ela, ser uma liderança feminina e que segue essa essência, nem sempre é muito simples pois tendemos a usar de artifícios melhores aceitos no meio.” A mulher é por natureza sensível, fluida, capaz de ouvir e acolher. Com o amadurecimento, fui percebendo que posso usar o melhor dessa essência feminina ao liderar equipes. Faço isso com uma vontade grande de agregar a essas pessoas, que vai muito além de mostrar resultados e sou muito feliz exercendo esse papel de líder”.

 

Silvia Almeida

 

Como líder, Silvia comenta sobre sua admiração por diversas mulheres na T&A, engenheiras que sempre atuaram com determinação, garra e muito amor. “Aprendi e aprendo muito com cada uma até hoje”, diz a executiva, que acrescenta que esse cenário é fundamental para reforçar a questão da equidade dentro do mercado e da sociedade, a fim de construir um futuro mais igualitário e também mais criativo e inovador, características muito percebidas nas líderes femininas e que são essenciais para que as empresas se mantenham competitivas.

Um dos pontos trazidos por Anestine é também o desafio de trabalhar em setores predominantemente masculinos. “O desafio é estar atenta a não se deixar diminuir e com o tempo, vamos entendendo formas cada vez mais tranquilas de sair disso. Hoje vejo que por atuar em áreas predominantemente masculinas e constantemente serem testadas ou sentirem que ainda não são boas o suficiente, as mulheres buscam e se cobram, se especializam e estudam muito. Estão capacitadas para as funções, mas seguem na busca por melhorar”.  Ela complementa ainda que outro desafio é conciliar os papeis de mulheres, mães, esposas e profissionais, entre outros tantos.

 

Teresinha de Jesus Lopes

 

Na área de produção, a operária Teresinha de Jesus Lopes orgulha-se de completar 10 anos de carreira, no dia 25 de abril, na Protendit. “Tem sido surpreendente, a empresa me deu chances de desenvolvimento e de aprendizado. Comecei como auxiliar de serviços gerais, quando apareceu uma oportunidade de mudar de setor, topei o desafio. Hoje, sou operadora de máquinas e trabalho no setor de corte e dobras. Para exercer esse tipo de função é preciso prestar atenção, ser cuidadosa e ter força de vontade. É um serviço que precisa ter dedicação e isso tenho muita”.

Antes de trabalhar na indústria de pré-fabricados de Concreto, Teresinha atuou em um clube aquático, com crianças, em meio ao verde. Por isso, quando entrou nessa área, demorou cerca de vinte dias para se adaptar a essa nova realidade. “Peguei tanto gosto pelo meu trabalho que não consigo me ver em outra função. Gosto de aprender. Já lidei com lixadeira, maçarico, furadeira e pode ter certeza de que não tenho medo do trabalho”.

Outro exemplo é a Welzeli Lana de Souza, que foi destaque na edição 11 da Revista Industrializar em Concreto. Líder de produção da Precon à época, ela afirmou que a qualidade dos painéis fabricados está nas mãos de mulheres. “Elas são mais cuidadosas. Em nosso trabalho diário é a nossa delicadeza que faz a diferença”, disse. A inclusão social de mães de família na fábrica trouxe maior aproximação com toda a comunidade, além de vantagens competitivas como: ganhos de produtividade, redução de erros e menor custo, principalmente.

Institucional

Outra área com participação feminina é a institucional, no qual as mulheres estão em cargos de presidência, diretoria e gerência de importantes entidades setoriais. Na Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat), a engenheira Laura Marcellini desempenha um papel fundamental como diretora técnica. “Tenho oportunidade de aprendizado e atualização constante, num ambiente de respeito e colaboração, e relacionamento com lideranças dos demais agentes da cadeia produtiva, onde posso contribuir para a promoção do desenvolvimento do setor da construção no país”. A seu ver, a contribuição da presença feminina em qualquer setor está principalmente na agregação de diversidade de talentos e habilidades à gestão e à atuação das empresas. Mulheres tendem a dar mais atenção aos detalhes e às pessoas, estimular a colaboração e o trabalho em equipe, por exemplo.

 

Laura Marcellini

 

Uma das atribuições de Laura tem sido coordenar GTs de Construção Industrializada, um interno à ABRAMAT e alguns externos. Mais recentemente, Laura tem liderado o Grupo de Trabalho Consultivo da meta 9, relativa à Construção Industrializada, no âmbito o âmbito de um Termo de Colaboração firmado em 2020 entre o Ministério da Economia e a RECEPETI – Rede Catarinense de Inovação. resultante de um Edital lançado pelo Ministério.

O maior desafio enfrentado por Laura foi uma virada radical de direção na carreira, quando já tinha 5 anos de atuação na área de hidrologia, com um mestrado em andamento. O motivo disso foram as dificuldades financeiras da Fundação onde trabalhava, que começou a atrasar salários em época de hiperinflação. Então, ela aceitou uma oferta de trabalhar na área comercial técnica de uma indústria de argamassas. “Não foi nada fácil sair de trás de um computador, onde eu desenvolvia modelos matemáticos, passar por um treinamento de técnicas de vendas, receber um carro da empresa para ir a campo, demonstrar e negociar venda de produtos com construtoras, mas o desenvolvimento de versatilidade que isso me proporcionou foi enorme”, recorda.

Anos depois, já em outra empresa, seu maior desafio foi atuar como engenheira de assistência técnica, realizando visitas de atendimento a reclamações de clientes, em obras e reformas realizadas principalmente por consumidores finais, em que eram comuns as falhas de especificação e instalação dos produtos, ocasionando problemas variados. “Tudo isso exigia vistorias e perícias, orientações in loco, além de verificação de eventuais falhas dos produtos em si. Lidar com consumidores insatisfeitos de diversas origens e instaladores que não praticavam a boa técnica foi desafiador, mas me ajudou a desenvolver mais habilidades”.

A engenheira Geórgia Grace, gerente de projetos de desenvolvimento setorial da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), afirma que na área de sua atuação a presença feminina é percebida, composta por engenheiras e arquitetas, contudo, no nível gerencial, que na minha percepção ao longo dos 11 anos de CBIC não é maior que 20%. “Não estamos sem representação no nível de liderança/tomadores de decisão em virtude da marca do trabalho consistente e valoroso da Íria Doniak, na ABCIC, e por termos tido duas Secretárias Nacionais de Habitação, do Governo Federal, no ínterim de minha trajetória dentro da CBIC: Maria Henriqueta Alves e Inês Magalhães”.

Em sua opinião, a mulher na construção, seja no canteiro de obras ou em trabalhos gerenciais, sempre tem que provar, no médio-longo prazo, a que veio e o que é capaz de entregar, enquanto que para os homens etereamente há uma tácita aposta que o profissional pode dar certo. “Essa diferença nas atmosferas que circundam a mulher e o homem no ambiente de trabalho não é sutil para nós mulheres que costumamos ser sagazes ao subjetivo do cotidiano. Então, observo que essa ambiência de déficit de credibilidade se torna mais evidente quando emerge uma liderança feminina, num setor como o da construção”.

 

Geórgia Grace

 

Por isso, para ela, o maior desafio, mais estimulante e sempre contínuo ao longo da minha trajetória profissional é assumir desafios. “Aqueles projetos nunca trilhados que te dão um frio na barriga ao assumir são os melhores degraus para seu crescimento”.

A arquiteta e urbanista Márcia Bozza Haddad, consultora Sênior da Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (ABRAINC), afirma que sua história profissional sempre foi pautada no respeito e no fundamento técnico.

“Como atuei por muitos anos na área de concessão de financiamento para a construção civil, os contatos externos eram feitos com os representantes das empresas, em sua grande maioria homens. Mas o embasamento técnico sempre possibilitou esse contato respeitoso, mesmo quando o posicionamento final era negativo. Junto à equipe interna, essa disparidade foi menos evidenciada devido à equipe ser mais homogênea, com um número mais equitativo entre colaboradores homens e mulheres”.

 

Márcia Bozza Haddad

 

Segundo ela, felizmente, hoje, o país vivencia uma ampliação da participação das mulheres na Construção Civil, quer nos escritórios de engenharia e de arquitetura, quer nos canteiros de obra.

“Há muito pouco tempo atrás, era frequente eu ser uma das únicas mulheres participando de qualquer reunião e/ou evento da categoria. Entendo que a participação das mulheres traz uma visão mais abrangente das tarefas a serem executadas, quer por seu apuro técnico, quer por sua capacidade de atenção aos detalhes”.

Um dos desafios em sua carreira foi conciliar as tarefas profissionais e pessoais. “Infelizmente, as atividades relativas à administração da casa e as inerentes aos filhos, eram ainda de inteira responsabilidade da mulher, por mais que me rebelasse contra isso. Por esse motivo, minha opção à época foi passar o período dos filhos pequenos sem galgar possíveis funções de chefia, possibilitando assim ter mais condições de acompanhar a família”, recorda, mas para ela, essa postura não é nenhum pouco justa e talvez até inadmissível nos dias de hoje.

As experiências profissionais pela arquiteta e urbanista Raquel Sad Seiberlich Ribeiro, diretora Executiva do BIM Fórum Brasil, exigiram foco em integração das pessoas e equipes, promoção da empatia pelas partes interessadas, busca de sinergia pelas áreas. Por isso, ela pondera que a diversidade e complementariedade de visão e perfis que potencializam o sucesso das equipes. “É realmente importante colocar em pauta o tratamento com igualdade e não discriminação a toda pessoa, onde o fator decisório seja a competência para a função”.

 

Raquel Sad Seiberlich Ribeiro

 

Nesse contexto, Raquel comenta que suas energias estiveram direcionadas às pessoas, suas percepções e contribuições para identificar necessidades e transformar resultados individuais em resultado de todos os envolvidos. Um momento marcante de sua carreira foi a realização de um Roadshow BIM, à época em que era gestora dos Projetos de Inovação & Tecnologia e de Meio Ambiente e Sustentabilidade da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC).

O evento itinerante percorreu 16 capitas e o Distrito Federal, com o objetivo de apresentar as possibilidades de uso do BIM e seus respectivos benefícios e indicar a formação de um grupo de trabalho para continuidade da promoção do tema na região o que em grande parte ocorreu. “O maior aprendizado foi o positivo resultado do esforço de preparação para realização dos eventos, onde promovíamos reuniões prévias de alinhamento com as instituições parceiras locais para entender a realidade do mercado regional e a maturidade sobre o tema, somado às particularidades de costumes e culturas da região. Mais uma vez, em destaque, o grande valor de identificar as especificidades e diversidade das instituições, empresas e pessoas”.

No caso da questão institucional na área de pré-fabricados de concreto, conforme citado por Geórgia, a engenheira Íria, presidente executiva da entidade, é considera uma importante líder e referência no Brasil e no mundo, tanto é que ela foi convidada e posteriormente eleita para ser membro do Presidium da fib (Federação Internacional do Concreto), mais importante entidade mundial desse segmento. Sua atuação ativa em diversos contextos possibilita que a construção industrializada em concreto esteja em evidência, contribuindo para a disseminação de seus benefícios e ampliando o entendimento sobre sua versatilidade e aplicabilidade.

 

Íria Doniak

 

Além de Íria, a Abcic também conta com mais mulheres contribuindo para o trabalho realizado pela presidente executiva, pela diretoria e pelo Conselho Estratégico: Daliana Cabral, que auxilia na parte administrativa financeira da entidade, Jôze Ferreira, que atua na secretaria e relacionamento com associado, e Sylvia Mie, jornalista da Mecânica Comunicação Estratégica, assessoria de imprensa da entidade e agência de comunicação responsável pela edição da Revista Industrializar em Concreto.

Normalização

A presença feminina também tem bastante destaque na área de normalização. Conforme a engenheira Inês Battagin, superintendente do ABNT/CB18 – Comitê Brasileiro de Cimento, Concreto e Agregados, da Associação Brasileira de Normas Técnicas, a presença feminina tem crescido, mas poucas vezes sua atuação recebe o devido destaque; seja porque algumas funções de gerenciamento nem sempre são atribuídas a mulheres (como a Coordenação de Comissões de Estudo), seja pelas dificuldades impostas pela atividade, que até pouco mais de um ano era realizada em reuniões presenciais, nem sempre próximas aos locais de trabalho de alguns participantes.

“Neste período de pandemia, essa participação tem sido ainda mais expressiva a participação feminina nas Comissões de Estudo e Grupos de Trabalho de Normalização, tendo-se eliminado dificuldades e custos com deslocamento, bem como possibilitado um frequente e saudável networking para o desenvolvimento de normas”, pontua Inês.

 

Equipe da Abcic: Daliana Cabral, Sylvia Mie e Jôze Ferreira

 

Mesmo não se considerando uma liderança setorial, Inês tem um papel muito importante para a normalização da construção civil brasileira. “Apenas procuro fazer meu trabalho da melhor forma possível e tornar a atividade de normalização técnica mais atrativa, pelo entendimento do que representa e dos inúmeros benefícios que pode trazer a uma sociedade organizada”.

De acordo com sua avaliação, o Brasil é carente nessa área, apesar de contar com profissionais dedicados e empresas/entidades que entendem e valorizam a atividade, pois a cultura da Normalização Técnica, embora esteja evoluindo, é ainda incipiente, se comparada ao que se verifica em países como Japão, Coréia, Estados Unidos e nações da Comunidade Europeia.

 

Inês Battagin

 

Desse modo, nessa linha de atuação o desafio é constante e com a publicação da Lei Geral de Proteção de Dados, essa questão tem se tornado extremamente complexa, pois, se por um lado é essencial ter acesso aos mais diversos contatos de pessoas e empresas, para que sejam convidados a tomar parte nos trabalhos, por outro, o acesso a esses contatos tornou-se restrito e o tratamento que deve ser dispensado às informações pessoais é mais complexo, pela responsabilidade envolvida.

“Os Comitês Brasileiros de Normalização Técnica, como é o caso do ABNT/CB-018, pelo qual respondo, têm nas Comissões de Estudo sua grande força de trabalho, com a participação de especialistas que, voluntariamente, colocam seu conhecimento à disposição da sociedade, para que as Normas Brasileiras expressem as melhores soluções em cada caso. Via de regra, nessas Comissões, tem-se discussões de altíssimo nível e grande colaboração dos participantes para o desenvolvimento ou a revisão dos documentos normativos”, pondera.

Nesse sentido, o apoio da ABCP tem sido fundamental porque sedia o ABNT/CB18 e provê o Comitê os recursos necessários ao desenvolvimento dos trabalhos de normalização técnica, tendo possibilitado a realização de inúmeras reuniões de Comissões de Estudo em suas dependências, além de incentivar a atuação de seus especialistas em temas diversos, com o apoio do laboratório de excelência da entidade no desenvolvimento de pesquisas e na realização de ensaios para comprovação de resultados necessários ao avanço seguro dos textos normativos.

Mesmo com tantos desafios, Inês ressalta que algumas vitórias trazem a certeza de que vale à pena insistir, para que de fato a sociedade seja a maior beneficiária desse produto, a Norma Técnica, que é desenvolvida por essa mesma sociedade. Durante sua bem-sucedida carreira, a engenheira recebeu o Gilberto Molinari, durante o 56º. Congresso Brasileiro do Concreto, em 2015, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados ao Instituto Brasileiro do Concreto.

Economia e pesquisa

Já na área da economia, voltada para o setor da construção, as mulheres estão representadas pela economista Ana Maria Castelo, coordenador de projetos da construção da Fundação Getulio Vargas (FGV). “É uma grande responsabilidade, mas também instigante – o aprendizado não acaba nunca. Ao realizar estudos e projetos, temos a oportunidade de compartilhar  e aprender também. Na FGV, um aspecto muito importante do meu trabalho diz respeito ao relacionamento com outras pessoas”.

Ana explica foi para a FGV já como uma especialista na área da construção com muitos trabalhos realizados. “Acho que para mim o maior desafio foi aprender a encarar plateias para fazer palestras. Eu era muito tímida. Assim precisava de um longo preparo. Hoje parece natural como falar com amigos, talvez porque depois de tanto tempo, a maioria seja, de fato, pessoas conhecidas.

 

Ana Maria Castelo

 

Uma história marcante para ela foi em uma palestra de final de ano para a Abcic. “Provavelmente o estresse do final de ano me afetou e mal terminei a palestra caí para trás. Foi um grande susto para todos. Consegui me recuperar rapidamente e aproveitar a festa, mas quando ia fazer uma palestra, por muito tempo, senti olhares temerosos. Felizmente, não ocorreu novamente”.

Academia

No âmbito da academia, o cenário não é diferente. Bruna Catoia, engenheira civil responsável pelo NETPRE (Núcleo de Estudos e Tecnologia em Pré-Moldados de Concreto) do Departamento de Engenharia Civil da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), se orgulha em ver que as mulheres não somente são capazes, mas se sobressaem em diversas atividades que permitem ressaltar características como maior sensibilidade, detalhismo, multitarefa, perseverança e capacidade de superação. “Fiquei admirada e muito feliz um dia que ao visitar uma fábrica de pré-fabricados vi que mulheres foram escolhidas para uma ala específica da produção devido a serem mais detalhistas e garantirem um melhor acabamento para os elementos produzidos”, conta.

 

Bruna Catoia

 

Para Daniela Gutstein, professora adjunta do Departamento de Construção Civil da Universidade Federal Tecnológica do Paraná (DACOC/UTFPR), a proporção de mulheres no curso de graduação e nas empresas na ocasião, em relação às respectivas proporções atualmente aumentou muito, mudou completamente o cenário e isso interfere no mercado de trabalho. “Dentre meus melhores alunos, uma boa parte são mulheres, ou seja, as mulheres na engenharia estão tendo maior participação e não somente em quantidade, mas em qualidade, alcançando posições de destaque”, destaca.

De acordo com ela, a mulher engenheira tem todas as condições e possibilidades, assim como seus pares, de desempenhar com excelência as suas funções. É comprometida e procura conciliar o importante raciocínio lógico com a capacidade de liderança que lhe é inerente, seja na sua própria função (autoliderança) ou na coordenação de equipes.

Por ser uma líder na área acadêmica, Bruna afirma que essa posição é gratificante e, ao mesmo tempo, desafiadora, uma vez que os diferentes tipos de pesquisa que o NETPre realiza, tanto as pesquisas acadêmicas como as pesquisas aplicadas na prática por meio da interação universidade – indústria viabilizam o desenvolvimento de ciência e tecnologia, o que permite contribuir com a sociedade por meio da disseminação desse conhecimento a partir da publicação de trabalhos científicos e da colaboração com as revisões de normas da ABNT.

O desafiador, segundo Bruna, vem do difícil trabalho para o desenvolvimento de uma pesquisa inédita, que exige o desenvolvimento da capacidade de lidar com frustrações. “Os recursos para a realização das pesquisas acadêmicas estão cada vez mais escassos e sem a parceria com as indústrias muitas pesquisas teriam sido comprometidas”, lamenta. Por isso, ela enfatiza a importância do apoio das indústrias do setor de pré-fabricados e a cooperação da Abcic.

Além disso, ela ainda enfatiza o papel do professor Marcelo de Araújo Ferreira como incentivador de sua carreira acadêmica, a partir de seu entusiasmo e amor pela pesquisa que contagia todos ao seu redor. A partir do momento que entrei no NETPre fui contemplada com inúmeras oportunidades de desenvolver ciência e tecnologia com aplicação no projeto estrutural”.

Pela sua vivência profissional, Daniela possui um perfil um pouco diferente do usual na área acadêmica, por ter tido experiências baseadas em pesquisa aplicada em engenharia, na resolução de problemas reais identificadas por ela nos projetos em que trabalhou. Para ela, alguns setores sofrem com a carência de mão de obra de engenharia qualificada, com seus anseios por soluções e inovações aos seus problemas, ou seja, uma oportunidade para Brasil crescer “Por que não crescemos juntos como profissionais, professores, pesquisadores e a universidade em si, já que soluções inovadoras também levam a pesquisas e sociedades inovadoras?”, indaga.

 

Daniela Gutstein

 

Sem dúvida, Daniela afirma que muita coisa mudou na última década, mas isso precisa ser apenas o começo de um caminho sem volta. “A área de estrutura pré-fabricada proporciona temáticas que se inserem ou lideram muito bem neste contexto em que universidades tem se mostrado bem mais abertas à esta evolução. Observo que na UTFPR tem-se buscado cada vez mais institucionalizar e regulamentar a inovação, seja em projetos de extensão e de pesquisa, ou de pesquisa e desenvolvimento ou mesmo em projetos de inovação, com perfil mais colaborativo entre universidades, empresas, startups e outros. Se considerarmos a evolução da estrutura pré-fabricada ao longo da última década e as previsões para os próximos anos, a exemplo do contexto internacional, vejo muitas possibilidades de inovação”.

Em termos de trabalhos para o setor de pré-fabricados de concreto, Daniela se recorda de sua participação no pré-Comitê de revisão da ABNT NBR 9062 (de Projeto e Execução de Estruturas de Concreto Pré-moldado), em 2001, como uma das únicas mulheres presentes. “Era um grande desafio abordar tais conteúdos à luz da industrialização da construção; alguns itens, se não devidamente estudados e normalizados poderiam descaracterizar o concreto pré-fabricado em algumas situações”, disse.

Ela conta ainda que alguns representantes na Comissão sentiam a necessidade de detalhar mais a norma, de forma a esclarecer as condições da estrutura pré-fabricada, e mesmo especificando requisitos e limitações de forma a estabelecer um nível mínimo de qualidade de seus produtos para definir uma concorrência mais leal no setor, valorizando a boa engenharia, a qualidade desde o início do projeto-produção até a fase final de vida útil da estrutura pré-fabricada. O resultado foi que a elaboração de um texto-base a partir da versão de 1985 e a retomada da Comissão de Estudos de revisão da norma (ABNT NBR9062) que renderam muitos estudos e discussões. A ABNT NBR 9062 hoje encontra-se na versão 2017.

 

Especial Dia Internacional da Mulher publicado na Revista Industrializar em Concreto.

Leia também “Grandes Desafios e momentos marcantes”, complemento do especial.


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