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Desigualdade do trabalho dá sinais de queda

Recuperação do emprego em 2019 aponta para fim de ciclo negativo para a disparidade de renda iniciado em 2015

Depois de quase cinco anos de piora ininterrupta, a desigualdade da renda do trabalho emitiu sinais, no fim do ano passado, de que vai entrar em um ciclo de recuperação, segundo cálculos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), obtidos pelo Valor.

O índice de Gini da renda domiciliar per capita do trabalho ficou em 0,627 no quarto trimestre de 2019 – o indicador varia de um a zero, sendo zero a sonhada distribuição perfeita da renda. Trata-se de uma variação de -0,001 em relação ao mesmo período de 2018, quando estava em 0,628.

Daniel Duque, economista do Ibre/FGV, explica que o índice é assim mesmo, se move lentamente. O mais importante é o que o resultado aponta como tendência. A desigualdade cresceu por 17 trimestres consecutivos até setembro de 2019, quando finalmente se estabilizou. Agora, aponta para uma reversão no quarto trimestre.

“A recuperação mais forte do emprego no fim de 2019 permitiu isso, assim como a queda do número de desalentados [pessoas que desistem de procurar emprego]. Houve também aumento do emprego formal, que tem menor desigualdade de renda”, diz o economista, autor dos cálculos. “É uma reversão esperada.”

Na média de 2019, o índice de Gini da renda per capita do trabalho foi de 0,629, ligeiramente acima do registrado no ano anterior (0,628). A última vez que o índice melhorou na média do ano foi em 2014 (0,604), quando o país vivia bom momento no mercado de trabalho, com taxa de desemprego abaixo de 7%.

A desigualdade sempre foi um problema no Brasil e voltou ao debate com os retrocessos gerados pela recessão. O tema também ganha força no debate internacional. O filme “Parasita”, vencedor do Oscar, trata da desigualdade socioeconômica na coreia do Sul. O Prêmio Nobel de Economia de 2019 foi para pesquisadores que miram reduzir a pobreza.

Os primeiros anos da crise foram marcados pela perda de emprego entre trabalhadores mais pobres, em áreas como construção civil e comércio. A parcela mais rica também foi afetada, mas se reinseriu no mercado. Naquele período, o índice de Gini passou de 0,604 na média de 2014 para 0,615 em 2016.

Recentemente, a desigualdade crescia pela qualidade ruim dos novos postos gerados. São vagas de trabalho por “conta própria” (sem patrão, sem empregado) e também no setor privado sem carteira assinada, que pagam menores salários. O índice de Gini passou de 0,615 na média de 2016 e atingiu 0,628 em 2019.

Para Duque, a distância da renda de trabalhadores ricos e pobres deve continuar em processo de redução em 2020, com a recuperação do emprego e o possível aumento da formalidade. Empregos formais pagam, em média, melhores salários. Uma incógnita permanece no emprego dos mais jovens.

“É possível que haja uma redução da desigualdade puxada pelo aumento do emprego dos mais jovens, embora esse aumento seja improvável e tenha impacto relativamente baixo no índice de Gini”, diz Duque, citando o programa Carteira Verde e Amarela, do governo federal, focado no emprego de jovens.

Projeções de economistas ouvidos pelo Valor Data no fim do ano passado indicadram que a taxa média de desemprego deve recuar para 11,4% neste ano, com maior geração de vagas com carteira assinada. Em 2019, a taxa média de desemprego foi de 11,9%, como mostrou o IBGE no fim de janeiro.

Os cálculos do Ibre/FGV têm como base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad) Contínua trimestral, do IBGE, que acompanha o mercado de trabalho. Os dados não incluem, portanto, outras fontes de rendas como aposentadorias, pensões e benefícios de programas sociais (Bolsa Família, por exemplo).

O IBGE deve divulgar no primeiro semestre a Pnad Contínua com as rendas de todas as fontes (aposentadorias, aluguéis, programas de transferência de renda). Será então possível conhecer o comportamento da desigualdade da renda do Brasil de forma mais ampla. Os salários representam 70% da renda total.

O pesquisador diz que o comportamento da desigualdade da renda de todas as fontes tende a ter sido negativa no ano passado. Além de a renda do trabalho ter mostrado piora ou estagnação, a redução do orçamento do programa Bolsa Família pode resultar em um impacto negativo no indicador.

Outro fator que pode ampliar a desigualdade da renda de todas as fontes é a decisão do governo de cobrar contribuição previdenciária sobre o seguro-desemprego, medida que visa financiar o programa Verde Amarelo. “Os desempregados que ganham seguro-desemprego vão sofrer uma redução de renda.”

Fonte: Valor Econômico