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Rubens Menin vai investir mais de R$ 100 milhões em causas sociais

Determinado a doar tempo, dinheiro e influência, o empresário mineiro está decidido a mudar a filantropia no Brasil. Para dar o exemplo, vai destinar dinheiro do próprio bolso para ações que ajudem a melhorar a sociedade e que contagiem seus pares

“O grande homem é aquele que não perdeu a candura da infância”, diz o provérbio. Quando criança, entre 7 e 12 anos de idade, o empresário mineiro Rubens Menin tinha por hábito visitar todos os dias o avô materno, Heitor Menin, cuja casa era vizinha à dele. A relação do futuro engenheiro com seu avô era algo muito especial para aquele menino. Dono de uma padaria no bairro Funcionários, seu Heitor era do tipo que ajudava a quem podia. Foi um dos fundadores da Associação de Cegos Louis Braille, na década de 1930, e fundador do Lar das Cegas, primeira obra da associação, para acolher pessoas com deficiência visual em Belo Horizonte. Dava, ainda, uma mãozinha  para os estudantes de medicina que viviam “duros”: podiam lanchar de graça em sua padaria, motivo pelo qual o quiseram homenagear, na formatura, como paraninfo. “Mas o padeiro não podia ser paraninfo, não trabalhava na faculdade”, diz Rubens, rindo. “Ele conversava muito disso com a gente, eu me lembro direitinho.”

Quando tinha 12 anos, o menino perdeu o avô. Mas, as histórias desse convívio continuaram vívidas em sua memória. Passaram-se os anos e Rubens se tornou um dos maiores e mais brilhantes empresários do país e o único brasileiro a ter três companhias listadas na bolsa, todas fundadas por ele: MRV Engenharia, Banco Inter e Log Commercial Properties. Juntas, têm valor de mercado superior a 21 bilhões de reais.

Inspirada pelo pai, Maria Fernanda Menin envolve os filhos João Pedro (em pé), Heitor e Maria Beatriz, desde que eram pequenos, em ações sociais: “Se acredito que a filantropia é uma atitude positiva, transformadora de vida, quero proporcioná-la aos meus filhos também”

Inquieto, Rubens sempre teve vida atribulada. Mas, ele anda particularmente corrido nos últimos meses. A causa é aquela inspirada pelo avô Heitor: a filantropia. “Ajudar o próximo é como um vírus que te contagia e vai te envolvendo cada vez mais”, afirma. Logo após esta entrevista, por exemplo, que acabou às 10h da manhã de uma quinta-feira, embarcou para São Paulo, onde teve três compromissos no dia, todos dedicados à filantropia.

O primeiro grande projeto social do engenheiro de 63 anos foi há duas décadas, quando a MRV, empresa fundada em 1979, e que é, atualmente, a maior construtora residencial da América Latina, completou 20 anos de existência. O empresário, que era amigo do então prefeito Célio de Castro, procurou-o na intenção de realizar alguma ação de bem ao próximo. A construtora montou, em convênio com a prefeitura, uma clínica de saúde no bairro Sagrada Família, na região Leste de BH, que atendia a crianças e adolescentes das periferias para check-ups, exames, tratamentos dentários, consultas psicológicas, entre outras assistências. A clínica atendeu, em um ano, 60 mil jovens, que eram buscados em casa, passavam o dia por lá e levados de volta. Rubens se envolveu ativamente na concepção e no dia a dia do projeto. “Vemos que isso muda a vida de uma pessoa, e então queremos fazer cada vez mais”, conta.

O ortopedista Marco Antônio Percope, do Hospital das Clínicas, que está sendo reformada para receber pacientes da especialidade, graças ao Instituto MRV e a Rubens Menin: “Rubens ficou muito interessado em ajudar quando viu a resposta social que o hospital daria como consequência desse ato, com o aumento do número de consultas e a ampliação de leitos”

Como diz o próprio empresário, uma vez contaminado, não há como voltar atrás. “Essa coisa fica entranhada em você”, diz. Assim, passou a investir, do próprio bolso e via MRV, em diversos projetos sociais. Um dos que continuam até hoje é o apoio à Cidade dos Meninos São Vicente de Paulo, em Ribeirão das Neves, entidade criada pelo empresário Jairo Azevedo, do grupo Seculus, e da qual a MRV (e a família Menin) é maior doadora – Rubens, pessoalmente, já doou mais de 10 milhões à entidade. “É um projeto muito bem orientado, o objetivo é maravilhoso e é uma obra enorme. São quase 4 mil jovens atendidos todos os dias, serve 15 mil refeições diárias”, explica. Primeiro, a construtora doou uma casa; em seguida, dois prédios que abrigam 200 jovens. “A ajuda de Rubens é muito grande, tanto da empresa quanto pessoalmente, mas, para mim, o mais valioso são seus conselhos e opiniões”, diz Jairo, cuja vida é dedicada à filantropia. “Sempre o procuro quando tenho dificuldades, quando tenho decisões importantes para tomar. Ele é grande empresário e tem sido muito valioso como colaborador, conselheiro e formador de opinião.”

Identificar projetos com potencial – talento que se tornou marca de Rubens como empreendedor – é o objetivo do empresário no que diz respeito aos investimentos na filantropia. “Como os recursos são limitados, e ainda há muitas carências no Brasil, não se pode investir em projetos ruins”, diz. “Isso é jogar dinheiro fora. Meu foco é o de fazer com que o recurso seja o mais eficiente possível.” Rubens se refere ao fato de que a filantropia no Brasil ainda é muito tímida, tanto para dar conta das inúmeras causas que precisam ser ajudadas quanto em comparação ao que se faz em outros países. No World Giving Index da Charities Aid Foundation (conhecido como Ranking da Solidariedade), o Brasil, que é a nona economia do mundo e o 12º país em número de bilionários, caiu 47 posições no ano passado – de 75º para 122º, no quesito filantropia. O que já não era bom, ficou pior. Segundo relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o investimento social privado na filantropia equivale a 0,2% do PIB do Brasil, muito abaixo do esperado. Para efeito de comparação, nos Estados Unidos, onde a prática é bastante desenvolvida, o valor equivale a 2% do PIB.

Elie Horn, fundador da construtora Cyrela e um dos maiores nomes da filantropia no Brasil, uniu-se a Rubens na criação de uma ONG, o Movimento Bem Maior (MBM): “Rubens é generoso, tem o coração aberto. Se tivéssemos mais pessoas como ele, o Brasil estaria muito melhor”

Com recursos limitados, o cobertor fica mesmo curto. E o Brasil, para Menin, ainda tem questões mais complexas. Aqui, não vale a máxima: deve-se ensinar a pescar, e não apenas dar o peixe. “Nos Estados Unidos, a filantropia está voltada para dar a vara de pescar, mas aqui é preciso dar o peixe também, porque tem gente passando fome”, diz. Assim, explica, torna-se necessário entender o quadro para saber dividir e direcionar os recursos. “Não basta assinar o cheque. O segredo é assinar o cheque certo para o lugar certo.”

Uma das formas de organizar a atuação filantrópica foi criar o Instituto MRV, fundado em 2014 e cuja verba vem da doação de 1% do lucro líquido anual da empresa (o que correspondeu, no ano passado, a 6,5 milhões de reais). Maria Fernanda Menin, filha mais velha de Rubens e diretora executiva jurídica da MRV, participou ativamente da concepção do Instituto, do qual é conselheira. Apesar de ter apenas cinco anos, os impactos da entidade já são visíveis e, para Maria Fernanda, indicadores mostram que a maturidade foi atingida. Até hoje, já foram mais de 325 mil pessoas impactadas. Dois dos projetos do Instituto merecem destaque: as intervenções  em creches (com melhorias na infraestrutura, entrega de bibliotecas e brinquedotecas, além de atendimento às crianças) e uma ação iniciada em julho deste ano, voltada para a formação de professores de escolas públicas (institutomrv.com.br).

O empresário e também filantropo Jairo Azevedo, da Cidade dos Meninos São Vicente de Paulo, um dos projetos apoiados há mais tempo pelo Instituto MRV e pela família Menin: “Sempre o procuro quando tenho decisões importantes para tomar. Ele é um grande empresário e tem sido muito valioso como colaborador, conselheiro e formador de opinião”

A filha é a grande parceria do pai na filantropia. Começou a se envolver com causas sociais ainda no ensino médio e continuou a atuação quando entrou na empresa, há 20 anos. Mas, o envolvimento ficou ainda maior quando se tornou mãe (em 2007, nasceu João Pedro, seu primogênito; depois, vieram Maria Beatriz, de 11 anos, e Heitor, de 9 – claro, nome dado em homenagem ao bisavô de Maria Fernanda). Foi quando fez o compromisso de visitar anualmente uma creche com os filhos, que vão desde os 2 ou 3 anos de idade celebrar o fim do ano com as crianças da instituição, que é apoiada pelo Instituto MRV. “Se acredito que essa atitude é positiva, transformadora de vida, quero proporcioná-la aos meus filhos também”, diz Maria Fernanda “Crianças que têm tudo do bom e do melhor, que têm acesso a tudo, todas as oportunidades, têm de ter contato com realidades diferentes.”

João Pedro Menin já começou a praticar ações de iniciativa própria. Aficionado por tecnologia, teve choque de realidade na creche que visita todas as sextas-feiras, ao perceber que as crianças sequer sabiam o que era um iPad. “Eu sabia que isso acontecia, mas ver com os próprios olhos foi mais impactante”, diz ele. “Saber que essas pessoas não terão as mesmas oportunidades que eu me fez querer fazer a diferença”. Sendo assim, resolveu dar uma festa de Halloween para seus amigos, com o intuito de arrecadar dinheiro para comprar tablets. Conseguiu três aparelhos e mais três canetas bluetooth, com os quais passou a dar aulas na creche, ensinando as crianças a mexer nos equipamentos, a fazer ilustrações e vídeos. Já quer também ser voluntário em projetos apoiados pelo avô, sua fonte de inspiração.

O empresário Sérgio Coelho com crianças da creche que a Assopoc, associação fundada por ele, mantém em Crucilândia, a 104 km de BH: Rubens Menin e o Instituto MRV fizeram doações para construção de nova sede, com o dobro de vagas

A mesma contaminação que conseguiu na família, Rubens quer gerar em seus pares. Foi com essa intenção que se uniu ao colega de área de atuação, Elie Horn, referência internacional quando o assunto é filantropia, e fundador da Cyrela, construtora que, com a MRV, está entre as mais valiosas do mercado nacional, na bolsa B3. Horn é o único bilionário brasileiro, junto à mulher, Susy Horn, a assinar o acordo proposto pelos empresários e filantropos norte-americanos Bill e Melinda Gates e Warren Buffett, chamado The Giving Pledge, no qual os signatários se comprometem a doar mais da metade de sua fortuna. Rubens Menin e Elie Horn, com os empresários Eugênio Mattar, da Localiza, e João Araújo, da mineradora Buritirama, de São Paulo, fundaram há nove meses o Movimento Bem Maior (MBM). A proposta da organização é investir valores altos em causas sociais, selecionar bons projetos e incentivar outras pessoas ricas a fazer o mesmo. “Tem gente que tem condições e dá muito pouco. Temos de dar uma chacoalhada nessa turma”, diz Rubens. Horn é uma das inspirações de Rubens na filantropia – “ele é meu guru”, diz – e os dois conversam com frequência sobre o tema e estão juntos em diversos projetos sociais. “Rubens é extremamente generoso, tem o coração aberto”, diz Horn. “Se tivéssemos mais pessoas como ele, o Brasil estaria muito melhor.”

As metas do Bem Maior (MBM) são, assim como seus fundadores, ambiciosas. “Nós nos unimos com o propósito de mudar a filantropia no Brasil”, diz Rubens, entusiasmado. Ele conta que o principal objetivo é passar o valor investido nas causas sociais de 0,2% para 0,4% do PIB. A ONG ainda é muito jovem e está em processo de estruturação, mas essa equipe não brinca em serviço. Os quatro fizeram o compromisso de doar, cada um, 100 milhões de reais para a instituição. Eles buscam, agora, pessoas que estejam dispostas a doar, no mínimo, 3 milhões de reais por ano. “Nossa sociedade é boa, mas precisa ser estimulada”, diz Rubens. “Vamos fazer o maior fundo de filantropia do país”.

Alguns dos mais de 1.900 voluntários do Instituto MRV: todos colaboradores da empresa

A presidente executiva do MBM, Carola Matarazzo, explica que a entidade tem dois grandes braços. Um, de projetos de maior vulto, voltados para a educação, através dos quais a ONG pretende reunir iniciativas que contribuam para mudar políticas públicas no setor. O outro está voltado para projetos de menor valor financeiro, mas de alto impacto comunitário (ver movimentobemmaior.org). Para esse último, já fizeram uma primeira chamada. Pediram ao apresentador Luciano Huck para divulgar o edital em suas redes sociais e receberam 2 mil projetos, dos quais foram selecionados 50. “Queremos ser uma organização que possa dar o exemplo de transparência e validação de projetos”, afirma Carola. “Além de mobilizar empresários que ainda não têm canal de filantropia para participar.”

Rubens conta que os integrantes do MBM conversam muito sobre a importância do que chama de “shine”, ou seja, colocar luz sobre a causa, dar publicidade. Isso quer dizer não ter recatamento para falar sobre filantropia, divulgar as ações realizadas.  “Esse é um comportamento do brasileiro”, diz Rubens. “Nos EUA, é comum ver figuras públicas atuando em causas sociais, sem o menor constrangimento, como, por exemplo, o casal Obama, quando trabalhou em prol das regiões devastadas por ciclones; ou Jimmy Carter que, aos 94 anos, ajuda a construir casas populares”. Para Rubens, quem pratica filantropia tem obrigação de mostrar o que faz, para levar outras pessoas a refletir e a fazer o mesmo. “Às vezes, falar do que fazemos pode ser constrangedor. Mas, fazer o quê? Se tiver vergonha, não contamino outras pessoas”, diz. Por isso, não se importou em divulgar sua meta pessoal, firmada aos 60 anos, de doar 10 milhões de reais por ano até os 65, quando vai rever (para mais) o valor.

Entrega de kits do projeto Seu Filho, Nosso Futuro, do Instituto MRV, que fornece material escolar a filhos dos colaboradores da companhia

Um dos destinos escolhidos por ele, recentemente, para essa verba, é o Hospital das Clínicas (HC) de Belo Horizonte. Obcecado pela ideia de retornar à sociedade o que ela proporcionou a ele e à sua família em relação à educação, ele já tentava há algum tempo, sem sucesso, realizar doação para a UFMG, onde se formou em engenharia e onde dois de seus três filhos estudaram. Conseguiu uma maneira de fazê-lo quando o médico que trata de seu joelho, Marco Antônio Percope, mencionou a ideia de criar uma ala exclusiva para a ortopedia no HC, onde coordena o serviço. “Rubens ficou muito interessado em ajudar quando viu a resposta social que o hospital daria como consequência desse ato, com o aumento do número de consultas e a ampliação de leitos”, diz Percope. “Ele foi muito rápido e objetivo: agendou uma visita, conversou com a diretoria do hospital e assumiu o projeto.”

Com a obra, a ortopedia do HC vai dobrar o número de leitos, que passará para 26. O Instituto MRV vai doar uma parte e Rubens, pessoa física, vai doar o  restante. Ele vai dar o “match”, como se diz quando uma ação é conclusiva.

Voluntários em ação no Projeto Biblioteca Viva, do Instituto MRV: objetivo é reforçar a importância das bibliotecas e incentivar os jovens ao hábito da leitura

Outro projeto que chamou sua atenção foi a construção de nova creche para as crianças de Crucilândia, cidade a 104 km de BH, na região central do estado. O empresário Sérgio Coelho, nascido no município de 5 mil habitantes, é um dos fundadores da Assopoc (Associação dos Protetores das Pessoas Carentes), entidade gestora de lar de idosos com 150 internos, centro de equoterapia, Apae e creche. Atualmente, está em construção um novo prédio, para atender a crescente demanda da creche por vagas. O empreendimento vai atender 300 crianças. Mais uma vez, Rubens e o Instituto MRV estão entre os que doaram dinheiro. “Foram duas generosas contribuições”, diz Sérgio. “Todas com o mesmo propósito: o de fazer o bem.”

Entre um compromisso e outro, e diante de agenda cada vez mais apertada, Rubens tem sempre disponibilidade quando a conversa gira em torno de dois assuntos: filantropia e seus netos. Além de brincar, jogar futebol e xadrez com os nove netos (de idades entre 12 e 4 anos), ele gosta particularmente de contar histórias e conversar com eles sobre diferentes assuntos, inclusive sobre as causas sociais com as quais se envolve – exatamente como fazia seu avô, Heitor. A vida ensinou a Rubens, afinal, que elas (as histórias), transmitidas de geração em geração, podem imprimir marcas que ficarão para sempre nas lembranças – e nos atos – dos meninos. É como diz o velho provérbio dos sábios chineses: um grande homem não perde a candura.

O que Menin diz sobre Filantropia

  • “É como um vírus que contagia e vai te envolvendo. A coisa fica entranhada em você”
  • “Como os recursos são limitados e ainda há muitas carências no Brasil, não se pode investir em projetos ruins. Isso é jogar dinheiro fora. Meu foco é o de fazer com que o recurso seja o mais eficiente possível”
  • “Não basta assinar o cheque. O segredo é assinar o cheque certo para o lugar certo”
  • “Vamos fazer o maior fundo de filantropia do país”
  • “Às vezes, falar do que fazemos pode criar constrangimento, mas,  fazer o quê? Se tiver vergonha disso, não contamino as pessoas”